Abril de 2008
Foi publicada, na Folha de São Paulo e replicada em alguns sites, semanas atrás, uma notícia com resultados de um estudo feito com base nas folhas de couve-manteiga, couve-flor e espinafre. A pesquisa - realizada com animais em 2004 - sugere que, apesar do espinafre conter grande quantidade de cálcio e ferro, estes nutrientes seriam pouco aproveitados pelo organismo e, por conter alto teor de ácido oxálico, chegaria a ser prejudicial. A pesquisa não relata, no entanto, que o espinafre contém nutrientes benéficos e necessários como vitaminas A e C, potássio, proteína e folato (importante para gestantes e futuras gestantes, pois ajuda na prevenção de disfunções neurológicas no bebê).
Em resposta às notícias veiculadas com os resultados do estudo, a diretoria da SBAN lembra que, na atualidade, busca-se divulgar recomendações para a população baseando-se em evidências científicas, obtidas de um corpo de estudos, e não a partir de apenas uma pesquisa. De fato, a própria coordenadora do estudo afirma serem necessários mais estudos elucidativos a respeito do assunto. O Prof. Dr. Sérgio Alberto Rupp de Paiva, da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e 1º secretário da SBAN, destaca um artigo publicado em 2003 (Lomnitski e col), falando da segurança do uso de extratos de espinafre e de suas propriedades: suas folhas contém vários componentes bioativos (incluindo flavonóides), exibindo propriedades antioxidantes, antiproliferativas e anti-inflamatórias em sistemas biológicos. Os extratos de espinafre demonstraram exercer numerosos efeitos benignos, com funções anti-câncer e anti-idade.
A professora doutora Dirce Maria Lobo Marchioni, da Universidade de São Paulo, nutricionista responsável pelas informações científicas do site da SBAN, afirma que em função de um hábito pregresso nos EUA, já em desuso, de ministrar mamadeira de leite e espinafre, foram relatados casos de envenenamento por nitrato em lactentes. Os nitratos são constituintes naturais das plantas, e, devido ao possível efeito da ingestão de nitrato que ocorre naturalmente em alimentos como feijão verde, cenouras, espinafre, beterraba, não é recomendado que estes alimentos sejam consumidos antes do terceiro mês de idade. Mas, o que nunca é demais ressaltar, é que não se recomenda a introdução de alimentos, quaisquer que sejam, antes do sexto mês de vida.
Em complemento, a Profa. Dra. Ita Pfeferman Heilberg, nefrologista da UNIFESP e especialista em litíase renal, acredita ser um exagero banir o espinafre da alimentação e completa: “a única verdade é que ele aumenta a oxalúria, predispondo ao cálculo renal”. A nefrologista indica, ainda, o estudo de Bonsmann e colaboradores, mostrando que o espinafre não atrapalha a absorção do ferro pelo organismo.
A engenheira agrônoma Deborah H. Markowicz Bastos, professora associada do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, informa, ainda, que em princípio todas as folhas verdes escuras possuem ácido fítico, ácido oxálico e fitatos.
“Esses compostos complexam cálcio e ferro, sim, mas se o consumo do cálcio e ferro de melhor biodisponibilidade (origem animal) estiver em níveis normais e o indivíduo não apresentar anemia (ou outra deficiência), o nível de ingestão destes compostos, a partir das folhas verdes, não deve causar problemas relativos à absorção destes minerais”, finaliza.
Em suma, reitera-se o preconizado pelos órgãos internacionais de saúde e corroborado pelo Ministério da Saúde Brasileiro, que a alimentação deve ser variada e baseada em alimentos do reino vegetal, incluindo-se o espinafre neste contexto.
Referências: